segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Eu em você, você em mim

Amor,

Todos os dias, noto alguma coisa de mim em você. A coisa mais explícita que você puxou de mim (e do seu pai) é o interesse por música. Eu não faço nada sem música. Música está em tudo. Amo dançar. Você também ama. Trabalho ouvindo música, escrevo neste blog ouvindo música, durmo ouvindo música.

Mas o que eu adoro mesmo é dançar. Eu sou assim: se vou a um lugar e está tocando música que eu não gosto (música eletrônica e similares, pagode e cia e sertanejo e cia) eu fico de mau humor. Outro dia, fui embora do aniversário de uma amiga por causa das músicas. O aniversário era em uma espécie de boite (coisa que detesto) e as músicas eram tipo house ou coisa parecida. Aí eu não dou conta.

O meu humor varia conforme a música. Sempre fui assim, meio radical. Você não. Você dança qualquer coisa, tudo que tem notas. Ao menos por enquanto.

Outra coisa de mim que você tem é a alegria. Você é muito alto-astral, característica inegável minha também (exceto se eu for obrigada a ouvir músicas que não gosto).

Lembro que quando eu era criança, acordava cedinho para ver o sol nascer. Eu ficava maravilhada com aquilo. Cinco da manhã eu já estava na janela esperando. Eu adorava cada minuto do dia. Não queria perder nada, sentia o vento, o sol, a chuva (eu sempre corria para o lado de fora quando chovia na escola) intensamente. Eu curtia a vida.

Posso dizer que, para a minha idade, eu era uma criança diferente. Lembro que estudava no Colégio Santa Dorotéia, que tinha (tem) uma mata linda, na qual a gente não podia entrar.

Todas as crianças ficavam brincando de elástico, pegador, etc. Eu não. Eu gostava de ir sozinha para a mata e curtir a natureza. Ouvir o som dos passarinhos, olhar as folhas das árvores, colocar flores no cabelo. Eu ia escondido. Todos os dias. Era o meu momento. Hora de pensar, sentir a natureza, observar.

Quando eu morava com o seu avô, já adolescente, eu esperava ele sair para colocar o som bem alto e dançar a tarde toda. O som dele era muito bom mas, as caixas, pequenas, de vez em quando não aguentavam e caíam lá do alto, ficando penduradas pelo fio. Elas me denunciavam.

Seu avô costuma dizer que nunca me viu sofrendo por causa de nada. É engano dele. Ao contrário, sou muito sensível e sinto muito as coisas. A diferença é que eu não gosto de sofrer. Então, quando acontece algo ruim eu junto todas as minhas forças para a dor passar rápido.

Eu sempre procuro enxergar o lado bom das coisas. E tenha certeza: tudo, absolutamente tudo, tem um lado bom. Se não conseguimos ver na hora, vemos depois.

Costumo dizer que existem dois tipos de pessoas: as que não aprendem nunca e culpam o mundo todo pelos desgostos que passam, e as que pensam e aprendem com o sofrimento. Estas últimas crescem, se tornam um ser humano mais bacana, mais maduro e mais feliz a cada dia.

Espero que você também seja assim. É uma das coisas de mim, que sei que fará bem a você.

Beijos da sua,

Mamãe.

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